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2.1.17

Manaus, 2014: um carnaval que nunca terminou?

Depois de investir e contar com este blog para a organização do material de campo com qualidade em quase toda minha trajetória de pesquisa acadêmica, despeço-me deste blog ao menos por um breve período. Em 2017, portanto, ao menos neste blog estarei afastado do registro de desfiles seja na Intendente, seja na passarela de Manaus. Deixo um último registro nesta postagem.


Fiquem com o vídeo, uma espécie de curta amador etnográfico que registra a peculiar apuração do carnaval de Manaus em 2014. Este foi provisoriamente batizado como "Manaus, 2014: o carnaval que não terminou". Apuração que terminou com a vitória de todas as escolas participantes do desfile. Após esta apuração os foliões expõem suas sensações alguns de felicidade, outros indignação. A sensação resultante acaba sendo a de um carnaval sem conclusão, sem vencedores e sem vencidos, contrariando parte do espírito competitivo dos desfiles das escolas de samba. O vídeo em questão fez parte da apresentação de defesa de tese no meu doutoramento em antropologia. 





É isso! Em breve este blog perderá seu domínio e passa a atender no endereço http://delezclube.blogspot.com . Quem quiser baixar e republicar todo e qualquer conteúdo aqui disponível segue tendo total liberdade.

11.1.15

O novo DelezClube no carnaval 2015

Bom galera como vocês já sabem este é um espaço que uso para desabafar, me divertir e principalmente compartilhar coisas interessantes que vejo por ai. E tal como boa parte do meu interesse é voltada par o carnaval o espaço reflete o interesse. Nos últimos tempos meu interesse focou num lugar bem especial das escolas de samba, para não dizer um dos seus pontos centrais, as baterias.

Confesso que boa parte da inspiração recente vem de um grupo que faz um trabalho bonito com as baterias cariocas nos ensaios técnicos da Sapucaí. Falo do pessoal do site Apoteose.com. São vídeos, áudios e fotos todas focadas no coração da escola de samba. Tudo pensado para traduzir o interesse dos ritmistas para o grande público. Algo que acaba por criar ainda uma rede de informação especializada nas baterias de escola de samba. E não é uma inspiração recente, pois o trabalho do Apoteose.com tem antecedentes nos blogs paulistanos Bateria S/A e Ritmista.

Por mais que não desfile em nenhuma bateria e a pesquisa de doutorado nem esteja tão voltada para esse lado, encontrei um tempinho para me dedicar ao assunto. Aqui se alista mais um soldado nesta batalha ampliando a rede do ritmo para o carnaval de Manaus. Cidade de valores genuínos na área. Manaus tem ritmistas talentosos e valores musicais que surpreendem por seu apuro e excelência. Surpreendem tanto ou mais que o grandioso sambódromo local, o maior do Brasil.

Alguns podem argumentar que a ênfase nas baterias já era um viés do blog. Então agora o assunto será mais enfatizado ainda. Tentarei passar a visão de quem faz as baterias de Manaus, sem meter muito o bedelho, apenas abrindo espaço para quem quer mostrar seu trabalho. Um trabalho valoroso que faz por merecer esse espaço. Portanto, se me aceitarem nessa trincheira vamos para a batalha.

31.5.14

Todo material do Delezclube no MISAM

Agora toda população de Manaus, principalmente os pesquisadores de carnaval e cultura popular podem ter acesso direto ao material sobre as escolas de samba de Manaus publicados aqui neste blog. Indo mais além decidi doar ao acervo do MISAM(Museu da Imagem e do Som do Amazonas) uma parte do material da pesquisa desenvolvida em meu projeto de doutoramento em Antropologia inédita. São mais de 36GB entre fotos, áudios e vídeos de diversos momentos da preparação à apuração passando pelos desfiles das escolas de samba de Manaus.



Esta é mais uma forma de retribuir ao carinho com que todos os sambistas me receberam na cidade. O material continuará disponível nos posts aqui do blog com licença Creative Commons, ou seja, tudo aqui pode ser baixado e compartilhado gratuitamente desde que preservando a fonte. A entrega ao MISAM significa também uma pequena contribuição aos solicitos servidores desta instituição. Recomendo a todos desfrutarem do acervo e prestigiarem o MISAM.


O MISAM funciona no Palacete Provincial, bem em frente à praça da Polícia no centro de Manaus,de terça à domingo das 10h às 19hs.

24.12.13

Neste final de ano, desejo muito samba para vocês!


As lágrimas emocionadas de dois sambistas, a saudade da minha família e a ternura da minha musa inspiram este texto. Já caminhando para a pieguice confessa eu expresso os votos de boas festas nestas mesmas linhas. É que o encontro daquela tarde foi inspirador para tal.

Participei do Encontro de final de ano do Grupo "Carnaval de Manaus(ESPECIAL)" do Facebook. Uma comunidade aberta com mais de 4 mil membros voltada exclusivamente para o debate e promoção do Carnaval da capital do Amazonas. Aconteceu ali no Largo São Sebastião, ao lado do imponente Teatro Amazonas e das estruturas montadas para o auto de natal ali encenado. Cheguei atrasado em relação ao horário marcado, pois esperei a carona da minha companheira de vida e pesquisa Taynah. Mesmo depois de dois dias cansativos de preparação para as festas de fim de ano, ela fez questão de me acompanhar ao encontro. A dificuldade de encontrar vaga próximo do local em meio ao turbilhão de gente que comprava no centro da cidade seria fator para mais stress. Enfim, paramos e nos dirigimos a pizzaria onde muitos dos membros já aguardavam.

Amigo oculto Betinho e eu
Ali era o momento da materialização de muitas das fotos e nicknames que eu lia num exercício diário para me inteirar dos eventos e últimas novidades do samba manauara. Com o fim (ou paralisação temporária) do portal Manaus Samba, esta é uma das poucas ferramentas para informação sobre as escolas de samba locais. Reunidos na mesa tanto membros das principais escolas de samba da cidade, como simples torcedores rivais. Claro que não eram todos os 4 mil membros ali presentes, mas ali o discurso de rivalidade extremada muitas vezes explicitado na própria comunidade do Facebook era arrefecido na gargalhada de satisfação das animadas conversas que cruzam a grande távola da Splash. Haveria um amigo oculto. Haveriam membros que revelariam seu presenteado numa trapalhada antes da brincadeira. Gente que não se conhecia, se conheceu depois de tanto tempo falando pelo computador. Um pouco óbvio, não?

No Rio de Janeiro, na casa da minha família, uma outra família se reunia para celebrar o final de ano. Os amigos do Programa Cidade do Samba a quem devo tanto por tudo que fizeram por mim (até mesmo ao cafajeste do Mago do Samba) se esquentavam na tarde chuvosa. O mesmo ritual se repetia, das conversas animadas ao amigo oculto. A diferença é que o grupo carioca se conhece muito bem. Estão lá bravos defendendo a bandeira do samba, levando informação e diversão às casas de milhões de ouvintes pelo mundo todos os sábados, das 21hs à meia-noite. Na festa da minha casa carioca tudo acaba em samba. Assim em meio as rabanadas e biricobicos lá estava o animado batuque de mesa onde todo mundo canta, toca e dança. Mais do mesmo né?

Taynah, eu, Miguel, Priscila, Mirella, Thaila e Robertinho -
Foto de Luciano Bittencourt
Notem que algo ali quebrava o óbvio, era o samba, sempre ele. E se na tristeza profunda do banzo, da escravidão, da pobreza o samba deu razão para muitos viverem agora que ele alcança o mundo, como bem disse o poeta, sua capacidade terapêutica se potencializa. É para sarar dos grandes aos pequenos problemas da vida. As brigas do facebook se desfazem nas lágrimas e discurso emocionado do artista Miguel Soares e da rainha de bateria Priscila Carla. Lágrimas sinceras de duas pessoas que são a cara do samba manauara. Pagam qualquer sacrifício dos que ali estavam presentes, até mesmo a trabalheira dos organizadores do encontro, especialmente Luciano que apenas organizou o amigo oculto sem poder participar. Minha companheira Taynah saiu dali mais leve e empolgada cantarolando, vejam só, os versos do "Boooooni, tu és o astro da televisão..."

Volto em pensamento ao Rio de Janeiro para materializar o sorriso da minha mãe e dos meus avós com as brincadeiras que o João Estevam promove. Visualizo meu irmão despojado da formalidade do direito para batucar um tamborim, minha tia Mimica balançando os braços entusiasmada com a música do Noel Rosa que alguém puxou. Mal sabem as crianças do Alemão que o pagode também era trilha sonora dos preparativos para a chegada de Papai Noel organizada pela galera do programa. Suspiro com um leve sorriso e a certeza de que estão bem e felizes naquele momento, uma satisfação enorme para mim.


Randson, eu e Taynah
Enfim, sei que me prolonguei e nem fui tão brilhante quanto meu pai em suas colunas no Carnavalesco, mas espero ter passado o sentimento dos meus votos de Feliz Natal e Ano Novo aos amigos. Quero abraçá-los com o carinho infinito da Taynah. Que o espírito de congraçamento seja o mesmo que move meus amigos da Comunidade do Carnaval de Manaus. E que o presente maior seja a solidariedade do Papai Noel do Programa Cidade do Samba.

Papai Noel do Cidade do Samba, o melhor do mundo.




8.11.13

Lista de preferência:Sambas do Grupo Especial RJ 2014 - Versão concorrente

A LIESA já tem data pro lançamento do CD oficial das escolas de samba do Grupo Especial. Os viciados em samba de enredo como este que escreve, no entanto, já estão com as versões inscritas no concurso rodando nos players há um bom tempo. Com a divulgação de trechos da gravação oficial do CD estes mesmos alucinados correm para internet e abastecem os players com uma passada que seja dos hinos das escolas para 2014. Até o dia 26 de novembro será com esses arquivos ainda que incompletos que andarei no tocador de MP3. Hoje, portanto, despeço-me das chamadas versões concorrentes que quebraram um galho até aqui avaliando as mesmas.

E como todo blogueiro, eu quero fazer algumas considerações a revelia de ter sido solicitada minha opinião. Inicialmente em relação as gravações que os compositores andam fazendo. As introduções são cada vez mais longas. Algumas justificam-se, outras são só para tornar o botão de acelerar necessário de tão longas e chatas. Vejo que o Wander Pires mais uma vez reina cantando a maioria dos sambas vencedores. Também pudera, sempre admirei seu estilo. Faz valer sua ótima forma. 

Finalmente, sobre a metodologia da minha avaliação. É ultrasubjetiva! Trata-se do meu gosto apenas com os sambas listados em ordem de preferência pessoal. Sei que as pessoas envolvidas com as escolas,passando pelos compositores, pelos componentes, torcedores e até mesmo os "modinhas"(que mal sabem da existência de outras agremiações que não as que simpatizam) ficam enfurecidos com as críticas. Cospem marimbondo desde os mais conhecidos críticos dos sites mais populares sobre carnaval até os blogs pessoais humildes em audiência como este aqui. Esse pessoal precisa amadurecer para encarar os tempos atuais com esse bombardeio de opiniões acessíveis a todo o mundo. Só que isso é assunto para outro momento. Assim sendo vamos as opiniões sucintas, em formato de tweets, sempre ressaltando o lado positivo e ignorando o negativo. Deixo as críticas para os mais íntimos e que entenderão minhas colocações.

1.Portela - Meu preferido. "Vou de mar a mar" é a trilha sonora dos meus dias.E o trecho "Sou carioca meu jeito é de quem..." virou mote do meu perfil.
2.Salgueiro - "...na sutileza dos teus versos" é um samba ótimo.Questão de gosto, prefiro o da Portela.Soluções simples como a do refrão do meio e a própria ausência de refrão principal conquistam.
3.Mangueira - Desde a escolha disputou esse posto na minha lista com a Mocidade.Levou vantagem por ter umas tiradas melódicas bem legais e o verso lindo sobre Parintins.
4.Mocidade - Deu pra sentir o clima entre os independentes para 2014 com esse samba, é volta por cima mesmo.O samba conseguiu isso,resta ver na pista.Ótimo refrão do meio.FERNANDO PINTO, PRESENTE!
5.Vila Isabel - O samba de melodia gostosa reinventa o tema da biodiversidade brasileira e torna acessível ao público.
6. Império da Tijuca - Tem um refrão principal de grande apelo. O bom enredo contribui para uma boa letra.
7. União da Ilha - Gosto bastante dos sambas de SP dos anos dos anos 2000.Este segue a tendência com melodia diferente que segue a linha daqueles.
8.Grande Rio - Eu torço pra passar os refrões e chegar logo a bela entrada do samba e as variações melódicas da segunda do samba.Sou desses.
9.Imperatriz - Acho que sou o único que prefere a primeira parte do samba aos refrões.O pessoal gosta do "Dá-lhe,Dá-lhe ô...".
10.São Clemente - Uma das coisas mais interessantes é o refrão que antecede o final do samba: "É nas vielas que nasce o mais puro samba..."
11.Beija-Flor - Tem uma melodia legal.O refrão que mais gostava no samba, no entanto, não entrou na gravação oficial.
12.Tijuca - A exaltação ao Borel,que sempre é interessante,sairá na gravação oficial.O refrão do meio dá sensação de um circuito de corrida com suas sinuosidades.

8.2.13

Ao caranavalesco Saulo Borges, meu pedido de desculpas

Escrever um blog é fácil, o problema é quando ele é lido. Confesso que minhas experiências anteriores com blog haviam sido mais pessoais que qualquer coisa. Tão pessoal foi a experiência que esqueci que esse é um espaço público, lição que havia aprendido no Facebook e outras redes faz tempo. Logo tudo que aqui for escrito requer cautela.

Eis que revisando os posts onde afogava meu deslumbramento com os carros e artistas maravilhosos das escolas de Manaus acordei para minha injustiça frente a um desses artistas sensacionais, Saulo Borges da Mocidade de Aparecida.

A concepção do enredo, das fantasias e inclusive dos carros projetados por Yago na Aparecida é toda do Saulo. Um dos grandes responsáveis por termos esse jovem talento no carnaval hoje é Saulo Borges. Foi ele quem me impressionou pela cordialidade, pela inteligência ímpar em longa entrevista para matéria no site Carnavalesco em 2012.

Então no mesmo espaço que cometi o deslize eu peço desculpas públicas a esse grande artista, intelectual de admirável caráter. Peço desculpas também aos membros da comissão que não citei na matéria Clemilton Pinto, Almir Nascimento, Hamilton Bandeira e Paulo Rojas. Peço desculpas e agradeço a eles que conduzem da melhor forma possível a formação de talentos como Yago no carnaval de Manaus.

5.2.13

No clima dos barracões de Manaus

Galpões onde são preparadas as alegorias em Manaus
Ontem iniciei uma rotina de todos os carnavais que amo fazer: visitar e me informar do andamento dos bastidores das escolas para o carnaval que virá. Tenho essa predileção desde a graduação quando acompanhando o processo de transferência das escolas cariocas para a Cidade do Samba me tornei habitué do barracão do Império Serrano. Tal predileção virou capitulo e até fio condutor da pesquisa que fiz para o mestrado junto à Acadêmicos do Dendê.

Um mundo fascinante onde reconhecemos o valor dos artistas, dos sambistas responsáveis pela criação da maior festa do mundo. O lugar onde comprovamos o crescimento estrondoso da festa em todos os cantos do país. Vejam o caso de Manaus onde as escola tal qual no Rio de Janeiro já preparam suas alegorias em um espaço construído com este fim.

Infelizmente as dificuldades ainda se perpetuam. O descaso do poder público marca presença com o atraso da liberação de verbas que provocam uma correria desenfreada nos dias que antecedem os desfiles. A falta de fiscalização, a falta de capacitação da mão-de-obra, típica de um país que coloca cultura em décimo plano são outros entraves. Finalmente a realidade dispare que separa a festa das escolas do Acesso para o grupo Especial vem a se somar tornando os barracões espaço da dualidade ritual que cercam os desfiles de escola de samba em todo lugar.

Tentarei trazer esse material como forma de divulgação não só do carnaval de Manaus, mas numa tentativa de incitar um debate mais amplo, afinal mesmo com todos os problemas as escolas se superam. Apesar dos pesares as pessoas se entregam na produção da festa e continuam produzindo obras de arte efêmeras e eternas, pois marcaram milhões de vidas sensibilizadas pelo artista popular.

18.3.11

Alô! Alô! Tá na hora de ouvir nosso grito!


(publicado no site SRZD-Carnavalesco em 02/03/2011 www.carnavalesco.com.br)
Em matéria primorosa de Vicente Almeida publicada recentemente aqui no Carnavalesco, o diretor da TV Globo anunciou as “novidades” para a transmissão dos desfiles do Grupo Especial 2011. Basicamente o mesmo modelo será mantido com mudanças nas posições de comentaristas, apresentadores, essas coisas. Longe de querer algum tipo de ingerência sobre aspectos da transmissão da maior emissora do país. Apesar de não concordar não utilizarei este artigo para atacar o monopólio desta sobre a transmissão televisa dos desfiles. Quero apenas no meu papel de humilde e simples espectador chamar atenção para fato que irrita profundamente inúmeros telespectadores como eu que fanáticos gravam e assistem inúmeras vezes as apresentações das escolas: a ausência dos esquentas e gritos de guerra.
Trata-se de momento simbólico da ocupação da escola no palco principal do samba. A expectativa, a tensão dos longos silêncios nos discursos e apresentações iniciais. Os segundos eternos e meteóricos da saraivada de notas antes do primeiro verso ser cantado pelo puxador. Os momentos marcantes ou tensos que antecedem um desfile embalado pela trilha de sambas antigos, sambas de quadra e até vá lá músicas diversas ligadas ao enredo. Os discursos em algumas ocasiões polêmicos que revelam a face da escola que entrará na avenida. Em alguns casos são mensagem de esperança, outros de soberba e até mesmo situações extremas de tristeza por um carnaval frustrante. Omitir momento tão importante é esconder a festa (pois mais que espetáculo, é uma festa, um ritual-competitivo) em uma embalagem pausterizada e hermética.
A crítica se estende a TV Bandeirantes que transmite o Grupo de Acesso A incidindo no mesmo erro. Não é questão de simplesmente criticar a transmissão da emissora que como frisei é a maior do país. Mesmo nas transmissões tem muitas coisas legais como as reportagens de apresentação dos enredos e da preparação das escolas. A emissora tem os melhores profissionais do mercado, os melhores equipamentos, a melhor imagem só precisava dar maior atenção aos espectadores. Sei que os interesses do mercado levam a emissora a focar as transmissões em celebridades. Sei que o espaço publicitário é valorizado e a transmissão é pautada muitas vezes pelo ritmo destes. Penso, no entanto, que tudo isso poderia ser contemplado no período que a escola passa entre o setor 3 e o 7. Uma pena dizer isso, mas sacrificaria assistir esse pedaço do desfile se pudesse ver e sentir o clima da concentração com esquentas e gritos de guerra.
Aproveitando o ensejo, quero apresentar lhes alguns momentos preciosos registrados justamente nesse intervalo de tempo que antecede os desfiles. Relíquias de um espaço liminar que não é desfile, mas onde a escola começa a mostrar-se ao grande público. Todos revestidos de tensão e expectativa, simultaneamente deliciosos de se assistir. Uma lembrança bem adequada aos nos darmos conta que falta menos de uma semana para o reinado de Momo. Então, vamos a eles:
Esquenta Arame de Ricardo 2010
Adoro esse esquenta do Arame de Ricardo. O problema é que até hoje não descobri a origem ou autoria deste samba. Não sei se é samba de quadra, se a escola já desfilou com esse samba, só sei que acho delicioso e passo horas apreciando o romantismo da letra e a beleza da melodia. Talvez os leitores possam me ajudar a “desvendar esse mistério”. Já era fã do Arame de Ricardo por certo ar exótico que a escola exala. Meu carnaval não se completa se não assisto o Arame desfilar.
Esquenta e discurso do Acadêmicos do Dendê em 2010
Nunca vi ninguém melhor para um discurso na concentração do que o presidente de honra do Dendê, Macalé. Neste desfile por uma série de dificuldades que a escola enfrentou foi especialmente emocionado. Logo a seguir o belíssimo samba exaltação do Dendê.
Discurso e esquenta do Canários das Laranjeiras em 2010
Costumo brincar que o samba-exaltação do Canários é o único que cabe em um tweet, ou seja, tem menos de 140 caracteres. A letra simples é ornada pela melodia deliciosa que lembra os sambas de embalo dos tempos de bloco. Tempos que inclusive os blocos não precisavam mais que quatro versos para dar seu recado. O discurso do presidente Pico é representativo do momento em que a escola voltava a desfilar depois de um ano licenciada.
Esquenta e Grito de Guerra da Em Cima da Hora em 2010
Esteja onde você estiver sempre vai se emocionar e ficar arrepiado quando ouvir “Os Sertões”, no entanto, quando é a Em Cima da Hora que executa a obra-prima o samba adquire um ar sagrado. Em 2010 a escola foi campeã do Grupo de Acesso D, percebe-se no grito de guerra que ela passaria devorando asfalto naquele ano. O estilo performático do intérprete Serginho Gamma é um deleite para os cinegrafistas e espectadores. A entrada da bateria, um momento mágico e emblemático para os componentes, fica maravilhosa com o excelente ritmo da escola de Cavalcante.
Esquenta Unidos de Lucas em 2010
Bom, se ouvir “Os Sertões” executado pela Em Cima da Hora é uma experiência única, imagina ouvir “Sublime Pergaminho” executado por Lucas. Este sambaço nos faz nostálgicos da saudosa Unidos de Lucas e seus grandes carnavais. Que a Unidos de Lucas reencontre o caminho dos grandes desfiles e seus componentes e torcedores sejam bem felizes.
Esquenta Unidos de Cosmos em 2010
Pouca gente deve conhecer esse sambão que a Unidos de Cosmos apresentou em 2005 e foi esquenta da escola no último carnaval. Falando sobre malandragem de um modo tão sublime esse samba tem uma melodia viciante. O soar da sirene ao fundo, autorizando o inicio do desfile é algo que mesmo nos desfiles do Grupo A os que acompanham pela televisão não ouvem há um bom tempo.
Grito de Guerra Independente da Praça da Bandeira em 2010
Olha o clima de uma escola campeã. Você nota na tranqüilidade das pessoas no entorno do intérprete, na segurança da entrada da bateria. Neste vídeo o cantor da Independente adota um estilo parecido com o das escolas de samba de São Paulo com contagem regressiva e um “lalaiá” melodiado de acordo com o samba do ano. Conheço pessoas fanáticas por esse estilo, assim como outros que não gostam. O fato a ser ressaltado é a diferença nas transmissões entre Rio e São Paulo. Sabe-se lá o motivo, mas a Globo mostra alguns gritos de guerra das colas paulistanas, diferente do que faz no Rio. Assim muitos dos intérpretes lá já criam um estilo copiado por alguns cariocas.
Esquenta, Grito de Guerra e discurso da Matriz de São João de Meriti
A Matriz tem pouco mais de um ano de vida e seu samba exaltação já é cantado a plenos pulmões por seus componentes. Ouçam o ecoar dele no vídeo! O pitoresco discurso do diretor de carnaval Alemão é outra curiosidade. Mais enérgico impossível.
Esquenta Favo de Acari em 2010
O Presidente da escola, Fogueira, autor do samba exaltação é quem conduz o esquenta. Um fato significativo por si só. O bailar suave do casal e todo o orgulho de defender as cores da escola emolduram e completam o cenário.
Bônus – Discurso do Marquinho no Amarelinho em 2009
Na primeira e única vez até então que a Corações Unidos do amarelinho passou na Sapucaí nos legou essa pérola. Quem assistiu do setor 1 ou setor 3 acompanhou na íntegra esse discurso histórico do diretor Marquinho Harmonia. Depois suas palavras virariam lema do movimento popular de apoio à São Clemente, La Pandilla Clementiana: “é energia e vigor físico”.
Bônus 2 – Esquenta Arrastão de Cascadura em 2009
Um dos mais belos sambas da história do Arrastão de Cascadura e das mais belas obras do carnaval carioca em homenagem a Zezé Mota, enredo do Arrastão em 1989. Aqui na última passagem da escola pela Sapucaí é interpretada por Marquinhos Silva. Normalmente a escola esquenta com esse samba maravilhoso. É provável que quem for assistir ao desfile na Intendente Magalhães ouça ao vivo esse sambaço no esquenta.

20.2.11

Ecos do desastre

(publicado no site SRZD-Carnavalesco em 12/02/2011 www.carnavalesco.com.br)

Pensei em começar este texto expressando meus sentimentos frente a trágica imagem do fogo consumindo os barracões da Portela, União da Ilha e Grande Rio. Mudei de ideia diante da incapacidade de passar impressões com a propriedade de quem estava lá como o amigo Anderson Baltar. Não teria a capacidade de traduzir em belas e reconfortantes metáforas o esforço dos sambistas salvando o que era possível nos barracões. Tampouco seria eu o veículo que expressaria com exatidão a dor dos artistas envolvidos na produção das alegorias e fantasias da Grande Rio. Mesmo o conhecendo não conseguiria traduzir o investimento e orgulho do Adson Amazonas, artista de Parintins que produziu a belíssima "Aranha" da União da Ilha, o único carro destruído da escola. Quem sou eu diante da dor dos meus amigos do PortelaWeb e da Guerreiros da Águia ao ver sua escola atingida pelas chamas e envolvida em uma complicada troca de dia de desfile.

Tampouco quero entrar aqui no mérito sobre as decisões em relação ao regulamento da LIESA, que outros já o fizeram aqui neste portal com muita competência. Prefiro neste momento ater-me a defesa do bom senso e espírito critico. Precisamos usar este desastre como lição para algumas coisas que temos desprezado no nosso cotidiano. A primeira delas é a importância da prevenção. Hoje podemos agradecer por vidas terem sido poupadas, boa parte pela já excelente estrutura da Cidade do Samba com portas corta-fogo e saídas de emergência sinalizadas. É necessário lembrar que hoje existem 64 escolas de samba no Rio de Janeiro que não dispõem desse aparato. Uma delas inclusive passou por aflição parecida com um incêndio no sábado. É necessário dotar todas as escolas do Acesso A até o E de estrutura segura e confortável de trabalho. Um direito de todos.

Mesmo depois de desfrutar de tal equipamento, cabe a cada um de nós cuidar do mesmo. Seja cobrando dos dirigentes manutenção necessária para um ambiente de trabalho seguro, seja seguindo normas para tal quando estivermos nesses. Lembro que presenciei muitos fumando em diversos barracões da Cidade do Samba, apesar dos avisos orientando o contrário, especialmente no 4º andar. Outro exemplo ilustrativo do que falo foi minha experiência visitando o galpão do Caprichoso em Parintins. Logo na entrada o aviso: "Capriche na sua segurança, Use seus EPIs". Para entrar nos galpões é necessário usar capacetes ainda que você seja apenas visitante. Faz bastante tempo que não vejo ninguém usando capacete na Cidade do Samba.

O momento é de reflexão e por mais que a situação seja desoladora não podemos menosprezar nosso senso crítico. Cobrar uma investigação a fundo das causas do acidente ajudará na próxima tarefa que é a de construir um futuro mais seguro na produção dos desfiles das escolas de samba. Inclusive com condições dignas para os grupos de Acesso.

11.2.11

Eles ajudam a botar "os blocos" na rua

(publicado no site SRZD-Carnavalesco em 05/02/2011 www.carnavalesco.com.br)

Os olhos de Izaltino Gonçalves, presidente da Federação de Blocos, exalam nostalgia em sua forma mais bela e pura. É a saudade dos tempos dos "banhos de mar a fantasia" quando seu saudoso bloco, o Balanço da Mangueira, era campeão absoluto em todos os redutos carnavalescos da cidade de Sepetiba até o Lido. Era o campeão de blocos inclusive na Passarela do Samba em saudosos tempos que essa forma tão inocente de brincar carnaval tinha seu lugar no palco maior e sagrado do samba. Era nesse tempo que a Federação de Blocos Carnavalescos do Estado do Rio de Janeiro congregava em torno de 365 blocos de enredo e empolgação (um para cada dia do ano!) distribuídos de Santa Cruz a Paquetá em desfiles oficiais e competitivos de onde emergiam para a cidade do Rio De Janeiro os melhores, selecionados para a folia da Avenida Rio Branco e Marquês de Sapucaí no centro do Rio.

Hoje são 31 agremiações filiadas a instituição e que correspondem a categoria "Blocos de Enredo" uma espécie de estágio liminar, como chamamos na antropologia, entre blocos de embalo ou escolas de samba. Os blocos de enredo apresentam-se de forma organizada e processional com um enredo desenvolvido ao som de um samba-enredo, fantasias e uma alegoria como nas escolas. O encolhimento em um momento que o carnaval de rua é saudado como renascido na cidade explica-se por aspectos conjunturais. Primeiro é necessário voltarmos ao ano de 1988 quando um boicote contra a prefeitura tirou os blocos da Federação do carnaval da cidade. A resposta foi a desfiliação em massa com muitos deles entrando para a AESCRJ e permanecendo até hoje como escolas (casos da Acadêmicos da Rocinha, Boi da Ilha, renascer de Jacarepaguá, Canários das Laranjeiras...). E até hoje ela ainda sente os efeitos da "crise de 88".

E lá se foi o tempo dos banhos de mar a fantasia, proibido no final da década de 80, vejam só, pela FEEMA já que os mesmos poluiriam as praias. Não temos mais blocos na terça-feira gorda da Sapucaí lotando as arquibancadas como outrora. O carnaval de bairro nos subúrbios e regiões periféricas enfrenta crise persistente. Os blocos sofrem com rígido controle que impossibilita o surgimento dos mesmos em sua forma espontânea. A resistência do samba, no entanto, persiste e como um alento a Federação se reorganiza e volta a crescer. Hoje sua sede localizada no "coração do SAARA", no centro do Rio, é bem estruturada e conta com funcionários e diretores atenciosos e cuidadosos. As 31 agremiações filiadas levam o samba onde poucos ousam chegar. Um dos primeiros mergulhos no universo do carnaval que fiz, por exemplo, foi em um destes blocos: o Unidos de Tubiacanga, na Ilha do Governador. Quem conhece, sabe que o bairro de Tubiacanga é quase um recanto paradisíaco na Ilha do Governador onde até mesmo o transporte é escasso. Lá a Unidos de Tubiacanga funciona com organização de fazer inveja a muita escola.

Assim, a Federação prepara-se para um momento histórico: pela primeira vez atuará junto a AESCRJ promovendo a campeã do grupo I a categoria de "escola de samba". Portaria da RioTur e o regulamento da AESCRJ orientam que a mesma receba 4 escolas, tema polêmico (como tornar uma escola de samba, bloco?) que posso discutir em outra oportunidade. Posso adiantar, que em minha opinião é perverso querer varrer 12 escolas de samba do quadro competitivo sem aumentar o número de escolas no topo da hierarquia, ou seja, no Grupo Especial. Pior ainda é criar um funil onde apenas uma tem acesso ao "céu" por ano. Muita coisa o poder público imagina que pode gerir por decretos, mas cultura é a mais sensível de todas. Faltou ouvir os sambistas da base sobre o que eles pensam.

Quero agora, porém, homenagear essas agremiações. Essas são agremiações guerreiras que lutam para botar um carnaval na rua e levar alegria aos 450 componentes que desfilam em cada uma. Para tanto tem que trabalhar com a exígua verba de 15 mil reais por ano. Lutam ainda por sua visibilidade já que poucos veículos comparecem a Rio Branco no sábado de carnaval, que dirá a Intendente Magalhães ou a Cardoso de Morais. Tem ainda que enfrentar o desafio da onipresença, já que os desfiles acontecem os três no mesmo dia e hora. A indiferença do poder público ainda é vilã já que as condições estruturais na Avenida Rio Branco e na Cardoso de Morais deixam a desejar. Enfim, esses sambistas que vindos dos mais diferentes pontos da metrópole sonham em ser vistos pelo mundo.

Por que São Clemente?

(publicado no site SRZD-Carnavalesco em 27/01/2011 www.carnavalesco.com.br)

A vida reserva coisas inimagináveis para todos nós. Por exemplo, nunca imaginei que um dia seria torcedor da São Clemente. Fiquei algumas noites de confissões insones a procurar o porquê. E as voltas que nossa mente dá me levaram a tentar imaginar as motivações dos outros para tal. A pergunta vale para todas as escolas. A escolha pode ser racional, só que contraditoriamente encontra razões que ultrapassam a descrição vernacular. Assim o enunciador se perde nos labirintos obscuros dos sentimentos e não consegue expor com clareza o que quer dizer com isso.

Ser SÃO CLEMENTE é diferente. Não é igual torcer por uma escola de grande torcida, onde as pessoas muitas vezes não se conhecem, onde você entra e sai da quadra sem ser notado. Não é possível "torcer por torcer" para a SÃO CLEMENTE, não é o tipo da escola que se escolhe só pra dizer que tem uma escola de samba do coração. Só é possível ser SÃO CLEMENTE assumindo um compromisso sério que envolve sacrifícios. Torcendo para a SÃO CLEMENTE nunca você contará com a complacência do senso comum nos momentos mais difíceis como acontece com algumas escolas. Por isso, qual uma família a escola funciona.

Acredito que depois de gastar algumas, faltarão palavras para descrever o que senti na primeira vez que torci pela SÃO CLEMENTE. Melhor ouvir alguns que podem expressar melhor esse sentimento. Escolhi clementianos independente da idade de sua ligação com a escola. São pessoas com quem convivo e que se identificam como clementianos em suas redes de relações. Não sei se a edição ficou legal. Não sei se a idéia de dialogar com um vídeo foi bem sucedida nessa coluna. Depois quero a opinião de vocês. É que sempre vi a Thatiana Pagung em seu espaço utilizando o artifício com muita destreza e talento. Claro que não pretendo igualar-me a ela no oficio de cineasta, ela que inclusive foi minha professora sobre o assunto formalmente em uma instituição universitária. Pois bem, com a palavra os clementianos:

29.1.11

O Mundo é nossa passarela

(publicado no site SRZD-Carnavalesco em 18/01/2011 www.carnavalesco.com.br)

Atualmente é muito mais difícil ser sambista fora do Rio de Janeiro do que parece. Acredito que um pouco mais difícil do que admirar escolas de fora do Rio de Janeiro morando no Rio de Janeiro. Fora a óbvia barreira geográfica o preconceito e a visão ortodoxa são empecilhos bem complicados de superar.

Tenho vivido na pele tal dilema ao planejar minha viagem a São Paulo na sexta e sábado de carnaval. "Mas como você vai para São Paulo no carnaval?! Não gosta mais de samba?" perguntam os amigos. Justamente por ser apaixonado pelas escolas de samba estive aberto a uma das experiências mais legais dentro do universo carnavalesco que é essa de experimentar "escolas de samba" fora da Sapucaí. Foi assim que em 2003 ouvi os sambas de São Paulo pela primeira vez (alias, os sambas de 2003 e 2004 de São Paulo são sensacionais) e passei a assistir aos desfiles do Anhembi pela televisão.

E não parou por ai. Nos anos seguintes conheci as escolas de Cabo Frio e Porto Alegre. Em Cabo Frio uma estrutura muito boa chamada "Morada do Samba" com barracões e pista de desfile bem na entrada da cidade são atrativas para um belo espetáculo apresentado pelas escolas. Já em Porto Alegre as escolas, apesar de desfrutarem de um complexo de barracões exclusivo ainda enfrentam o preconceito de uma parte da sociedade. Independente disso a fibra dos foliões é suficiente para colocar belíssimos "carnavais na rua" e proporcionar um espetáculo que se consolida cada dia mais inclusive revelando talentos e artistas.

Recentemente visitei Manaus e saí deslumbrado com sua monumental Passarela do Samba. Além de uma construção muito bonita é gigantesca digna dos desfiles de escolas de samba considerados pelos manauaras como o 3º melhor do Brasil. Já coloquei na lista e um dia assistirei aos desfiles das arquibancadas circulares de sua dispersão. Ontem assistia a vídeos dos charmosos desfiles de Antonina no Paraná em ruas de paralelepípedo. Impossível não se apaixonar.

E assim a lista cresce com as escolas de samba de Floripa; as de Joaçaba (onde as escolas fazem a curva); de Uruguaiana; de Campos; de São Luís no Maranhão; de Belém e até mesmo em Recife. Aqui a história começa a complicar. Os sambistas de Recife ainda hoje sofrem com a chamada batalha entre "frevo e samba" brilhantemente descrita pelo antropólogo Hugo Menezes Neto (quem quiser ler o artigo dele sobre o assunto é só entrar em www.tecap.uerj.br). As escolas de samba são vistas como uma manifestação "menor", simples cópia do samba carioca. Assim elas perdem espaço inclusive físico e a batalha é árdua a cada
carnaval. Mesmo no interior do Rio de Janeiro as escolas sofrem para mobilizar a atenção das prefeituras em torno do seu desfile. Assim, não bastasse ser esnobada pelo epicentro e muitas vezes modelo de desfile que é o carnaval carioca, as escolas ainda enfrentam o descaso de seus mandatários municipais que não tem a mínima noção do valor cultural que representam as escolas de samba. Nós cariocas, mesmo poderíamos lançar um olhar mais atento sobre esses "outros carnavais" enquanto locais de inventividade e criação interessantes como fonte de inspiração para mudanças.Não apenas como agentes o que os cariocas já fazem em inúmeras cidades pelo país e pelo mundo, mas passivamente, abertos as experiências e aprendendo com os sambistas locais.

Com todo respeito sou do tipo que quer samba a vida inteira. Toda manifestação carnavalesca deve ser estimulada e contam com meu apoio. São as escolas de samba porém o real motivo da minha devoção. Estejam onde estiverem, do Japão à Paso de Los Libres na Argentina.

19.1.11

A perda da inocência

(publicado no site SRZD-Carnavalesco em 28/12/2010 www.carnavalesco.com.br)

Recentemente recebi meu DVD/CD da Superliga de São Paulo. Com ele pude reviver um gostinho que não sentia desde minha adolescência. Não os belos sambas daqueles tempos, o samba da Vai-Vai é bem gostoso de ouvir e a letra da Mancha bem inteligente, mas me refiro a outra sensação. Lembro do gostinho de pegar um disco de samba enredo sem conhecer nenhum samba.

Ouvir um disco com aquela sensação desbravadora que perdemos nestes tempos de internet. Tempos em que no ato da inscrição somos atualizados em tempo real dos 50 sambas concorrentes em cada escola. Onde muitas vezes temos contato com pessoas influentes que nos repassam o samba vencedor em gravações "demo" antes da final acontecer, mesmo que você more em Roiraima. Então ouvimos os sambas vencedores do Grupo Especial ao Grupo E incluindo os sambas de São Paulo e Porto Alegre até cansar nos celulares, Mp3 players e Ipods. Quando o disco fica pronto e começa a ser vendido já estamos cansados é de ouvir as faixas oficiais que vazam antes do lançamento. E são esses portáteis um dos responsáveis por desgaste tão repentino, afinal podemos passar 24 horas ouvindo samba. Tenho uma lista de mais tocados no MP3 player, outra no notebook, mais uma no PC e o som do carro adora repetir a faixa da União da Vila do IAPI no modo shuffle.

Ao receber uma bolachinha nova, com aquele cheirinho de plástico que a cada passada soava como novidade, fui tomado por nostalgia que remetia à minha infância na Ilha do Governador. Quando ficava ansioso para chegar da escola e ouvir o novo LP das escolas de samba. Lambia aquele objeto por semanas. A maioria dos encartes hoje estão desgastados afinal os levava para todos os lugares lendo e relendo os sambas e as fichas técnicas. O LP de 1991 é maravilhoso, pois além das letras, a sinopse dos enredos acompanhava. Hoje a babação em torno do CD dura pouco afinal só uso o mesmo uma vez para ouvir o resto é para admirar. Fica tudo em MP3 mesmo.

A sensação nos leva a pensar. Muito mais que a tecnologia a culpa é do sistema. Alguém diz: "Você ainda não ouviu o samba do Rancho Não Posso Me Amofiná? É o melhor de Belém!" Pronto é a senha para que você corra feito um desesperado atrás de todos os sambas de todos os grupos de Belém. "O samba da escola X é uma porcaria! Afinal a disputa foi uma pouca vergonha" diz outro. Daí você não consegue mais ouvir aquele samba com o mesmo ouvido inocente de quem não acompanhou a disputa.

Não acho isso ruim. A informação segue a velocidade que as pessoas lhe impõem. Ela se propaga pelos meios que lhe são oferecidos. Quando as faixas oficiais vazam são as escolas que devem procurar meios para evitar o vazamento. Pode ser uma opção essa nova realidade como fizeram vários artistas e parar de produzir e tentar vender CDs como fim em si mesmo. Talvez já estejam fazendo isso e continuem produzindo a matéria para aficcionados como eu. Pessoas que tem relação intima com o objeto. Que criam laços simbólicos de devoção a um ciclo temporal através dos discos. Confesso, entretanto, que achei gostoso relembrar essa sensação. Essa inocência perdida em algum lugar do passado.

5.11.10

Quatro instituições executadas por ano.

Na última plenária a AESCRJ definiu o número de escolas que sobem e descem no carnaval 2011. Até aí tudo bem, um avanço visto que nos últimos carnavais só saberíamos disso no dia da apuração ou uma semana antes dos desfiles. O Grande problema é o número de escolas que sobem e descem de um grupo para o outro.

Adotou-se a lógica elitista e excludente da LIESA e apenas uma escola subirá de um grupo para o outro. Pior exceto no Grupo A onde descem duas escolas e no Grupo B onde descem 3 em todos os demais descerão 4 escolas. Um absurdo que os dirigentes imaginem que melhoram o espetáculo diminuindo o número de escolas e jogando uma série de comunidades e grupos tradicionais na sarjeta. E não adianta vir com a desculpa de que muitas dessas escolas tem uma existência artificial, só servem para desviar verbas públicas para alguns dirigentes corruptos.

Primeiro pq fosse assim, não teríamos um público excelente e um espetáculo tão divertido na Intendente Magalhães. Não teríamos quase 50.000 participantes das 3 noites de desfile em Campinho. Já dizia o Durkheim: "não existem instituições humanas baseadas na mentira", se essas escolas desfilam, ainda que com um carro ou fantasias "pobres"(depende muito do seu conceito de pobre) um grupo de pessoas está ali legitimando essa sobrevivência. Em segundo lugar esses que comandam e afundaram instituições tradicionais em uma crise sem precedentes, verdadeiros patrimônios do carnaval carioca como a Unidos de Lucas, são apadrinhados por esses mesmos dirigentes que ainda permanecem na AESCRJ e políticos ligados a atual administração municipal. Pensem bem no que isso significa! Todos os anos 4 escolas acabarão para satisfazer os caprichos e a sanha monetária dos que controlam o carnaval carioca!

30.7.10

Minha Utopia Cabocla

"Viver...A Amazônia é uma utopia cabocla
Outro gesto solitário faz da festa a poesia
E do sonho nasce à arte sem saber o que é utopia"
Utopia cabloca - Toada do Boi Caprichoso


Vivo um momento de transmutação cabocla. Voltei do Amazonas, falando gírias da região; não consigo parar de ouvir toadas; defender ardorosamente meu Caprichoso; e o que é pior com muita mas muita saudade mesmo do Tacacá.

Foram dias mágicos que começaram em Manaus. Comer peixe todos os dias começaram a afetar minha saúde. Passei de um obeso consumidor de fast-food, para um candidato a esguio ribeirinho. O Teatro Amazonas com sua colorida arquitetura e decoração me fascinaram e tornaram-se companheiras de todas as horas. Bastava olhar da janela do hotel para sentir-me reconfortado. Não conheci só o lado bom da cidade, à noite vez por outra acordava com os gritos dos bêbados, moradores de rua, travestis e prostitutas. Os manauaras compartilharam comigo relatos de violência típicos do cotidiano das cidades.

Enfim, me apresentaram o sambódromo. Foi o suficiente para que a paixão concretizasse. A dispersão circular e inclusiva da pista de desfiles é realmente empolgante. Imaginar os currais dos bois lotando o espaço deixa uma vontade tremenda de voltar.

A magia da cidade de Parintins fica na mente. As pessoas, os bois, a festa e o sol constante que tornaram minha pele caboclas de vez. Desconfio que foi o cheiro do rio Amazonas. E a vontade de voltar aumenta cada vez mais.

1.5.07

Na Linha Vermelha

Há pouco tempo surgiu em um dos espaços relegados a "vigésimo plano" pelo poder público próximo à Linha Vermelha, por onde circulam milhares de veículos em direção ao centro da cidade e zona sul um conjunto de moradias. Na verdade a Linha Vermelha também serve de acesso à Baixada, porém o fato que discorro aconteceu no sentido Zona Sul. Uma ocupação de barracos de madeira e tapumes surgiu beirando o Canal do Cunha e lembrando as favelas de palafitas que outrora ocupavam a região. Os primórdios da favela da Maré eram bem parecidos. Jogados ali, longe de tudo os moradores da antiga favela Pinto, vítimas de um incêndio criminoso foram abandonados pelo governo de Carlos Lacerda (baluarte da política conservadora da classe média) às margens da Baia de Guanabara. Nesse espaço que antes era ocupado por lagos de xorume, chiqueiros e carcaças de carros incendiados agora existe uma ocupação. Trata-se do clamor de uma parcela da sociedade por moradia digna. Não estão ali por opção e sim por necessidade. Em momento algum é desejável dividir espaço com ratos e porcos à beira de um canal fétido. Não é protesto. Não é a mesma coisa que vestir uma camisa numa tarde de domingo e deitar no calçadão da Avenida Atlântica. Mesmo não se tratando de um protesto, tal ocupação suscita uma importante série de reflexões aos que enfrentam os congestionamentos diários no caminho pro trabalho.

Foi compartilhando do prazer de enfrentar um desses engarrafamentos com outras 13 pessoas, dentro de uma van que peguei na Ilha do Governador, que ouvi uma opinião sobre tal ocupação interessante para debate. A van é um dos meios de transporte mais confortáveis de acesso ao centro, logo é geralmente ocupado por pessoas de classe média. Enquanto passávamos pela ocupação a senhora que estava três bancos à frente do meu exclamou "Ai meu Deus! Mais uma favela! Qualquer dia vais ser impossível atravessar a Linha Vermelha!". Acredito que seria válida a preocupação da senhora fosse ela direcionada as condições de moradia precárias daquela nova ocupação. No entanto, endossando um ponto vista muito comum a classe média em geral, aquela senhora associou um grupo de moradores pobres à violência. Realmente o cotidiano desses moradores não é muito tranqüilo, porém essa senhora só faltou esconder a bolsa enquanto passávamos.

Não consigo ter muita esperança de mudanças pacificas em um ambiente de alienação tal qual se encontra boa parte da classe média atualmente. O fenômeno acredito seja mundial e se propaga na mesma escala que a expansão de uma cultura extremamente consumista. Nada disso é novidade no mundo capitalista. Não é fenômeno exclusivo do capitalismo neoliberal, é fato persistente em toda história desse sistema putrefante. Um sistema fadado ao fracasso tão desejado pela maioria dos que nele vivem, mas que teima em permanecer vivo.

22.4.07

A Alma encantadora das quadras

Totalmente imerso no livro maravilhoso de João do Rio tive essa vontade. Digo vontade, pois não considero algo novo. Não é uma idéia minha portanto. Considero algo tão interessante que não é possível que ninguém tenha deixado de pensar em algo do gênero antes.

É o seguinte, partindo do principio que as escolas de samba são uma das mais interessantes manifestações do carnaval no mundo inteiro; tomando a importância das escolas no cotidiano das comunidades pobres do Rio de Janeiro e em diversos outros lugares do Brasil poderíamos utilizá-las como objeto de contemplação como fez João do Rio. Fundamentalmente partiremos das escolas como objeto de contemplação, não de estudos, de pesquisa. As formalidades implícitas em uma pesquisa e seus métodos rigorosos pode tirar o brilho e o sentimento do projeto.

Funcionaria assim: visitas por todas as quadras do Rio de Janeiro no período pré-carnavalesco privilegiando as escolas dos grupos de acesso especialmente as menores e mais pobres. São poucas as matérias, inclusive em veículos especializados em carnaval, sobre escolas como Rosa de Ouro e Corações Unidos do Amarelinho. O mesmo ocorre com escolas outrora badaladas como Acadêmicos do Engenho da Rainha e Unidos da Ponte. Dessa forma a ascensão ou recuperação e até mesmo a decadência dessas escolas são ignoradas posto que acontecem quando estão nos grupos de acesso.

Estas visitas devem ser mais do que meros contatos etnográficos de campo, onde o observador busca distanciar-se do objeto. Ser repórter, procurar o furo do carnaval nessas quadras será infrutífero e tampouco alcançará o objetivo que desejo. Para tal projeto é necessário ter o espírito do "flaneur". O mesmo “flaneur” apresentado por João do Rio na "Alma encantadora das ruas". Aquele que sabe "perambular com inteligência".Deve-se flanar para sentir todo turbilhão de emoções que emana das quadras, para encarnar e interagir com cada elemento que batalha por um pavilhão. Sentindo a alma pulsante dos ensaios à relva e encravado no cume do morro. Circular por receptivas senhoras cozinheiras, comer suas sopas de ervilha; beber com os compositores; ouvir as reclamações dos oposicionistas da direção atual no botequim ao lado; não considerar perdidos os dias sem ensaio; constatar a convivência com o narcotráfico; a presença maciça de crianças nas baterias...Tudo isso sem gravadores, câmeras ou bloco de notas. As únicas ferramentas serão seus olhos e todos os registros na mente e no coração. No final do dia tal qual um diário tudo anotado com carregada carga expressiva. Acho que posso fazer uma concessão para uma câmera fotográfica desde que está seja utilizada para guardar essa alma pulsante.

Um projeto ambicioso desses não requer anos de estudo, mas anos de dedicação. Quem quiser tocar o mesmo não precisa ter milhares de contatos, mas vontade de tê-los. Coragem para tal é fundamental. Finalmente deve o “flaneur” ter sensibilidade de poeta. Eu queria ser esse “flaneur”, queria ser o cara que tocaria esse projeto, queria “perambular com inteligência” pela cidade. Não tenho nada que me qualifique como tal “flaneur” a não ser a vontade de sê-lo.

15.4.07

Perdendo o rumo I

Atravessar as ruas do centro do Rio é viver uma intensa experiência. Não é algo rotineiro. A curiosidade se renova todos os dias. Cada esquina reserva uma surpresa. Fico surpreso, no entato, de encontrar poucas pessoas que compartilham da mesma experiência que eu.

Acredito que estamos esquecendo que nossas ruas tem personalidade, tem alma, como dise outrora João do Rio. Hoje esquecidas pelos transeuntes que ignoram seus caprichos as ruas clama por atenção. O que está acontecendo?! Hoje em dia seus amantes de outrora preferem os shoppings essas ruas siliconadas e vulgares.

E a rua segue clamando por atenção. Até dinheiro a rua anda oferecendo para olharmos pra ela. Nas aristócráticas ruas do centro da cidade são abundantes os panfletos distribuidos aos seus nersovosos frequentadores. E como pagamos? Com desprezo, à noite são estas as mais solitárias ruas da cidade.

Existe esperança? Sim, ela reside dentre outros lugares em um aconchegante arco próximo da Pça.XV. Esta conquistou a todos e dessa forma a Rua do Ouvidor amanhece sorridente da Primeiro de Março pra cá e sisuda em direção à Rio Branco.

27.3.07

O cheiro da minha infância

Passando pela Praia de Botafogo numa dessas manhãs senti um cheiro gostoso de brisa. Era o mesmo cheiro que eu sentia nas manhãs que acompanhava minha avó até a padaria. Recordei de toda minha infância na Ilha do Governador. Um saudosismo bobo de quem viveu aquele período com intensidade. Sim, pois tenho maior apreço por minha infância que adolescência. Ignoro completamente a puberdade, período obscuro da minha vida.

O cheiro da brisa pela manhã acabou sendo o cheiro da minha infância. Apesar de ter vivido momentos marcantes longe da praia não sei por que aquele cheiro marcou minha memória. Acredito que pode ser pelas lembranças que ele me remete.

Quando senti esse cheiro na segunda-feira, lembrei-me da sensação inigualável de abrir os pacotes de figurinha, conferir e separar os cromos no caminho entre a banca e a padaria. Lembrei do Chevette branco do meu avô e de como ele dirigia distraidamente: divertindo a mim e meu irmão, irritando minha avó e outros motoristas. Recordei-me dos churrascos que aconteciam todos os finais de semana na garagem do prédio.Eram bons tempos aqueles em que não tinha muito com que me preocupar (todos dizem isso). Eu enxergo ainda de outra forma, tinha muito com que me preocupar sim. Eu crescia, ainda que a revelia, e o mundo se tornava cada vez mais gigante. Hoje o mundo cresceu tanto que me sinto menor que naquela época.

Perdi o controle!

21.3.07

O que é per-ambulante?

O que é perambular? Na minha concepção é vagar, assumir uma condição liminar frente a determinadas situações ou lugares. Trata-se da vontade de estar em todos os lugares ao mesmo tempo e não estar em nenhum deles. Viver entre diversos mundos sem assumir sua morada. Vestir diversos trajes e estar nu.

Seria perambular uma opção, um estilo de vida? Não. Assumir isso seria assumir uma certeza que o perambulante não pode ter. O perambulante nunca tem certeza de nada, ou melhor, tem certeza de algumas coisas mas coisas que não se tem certeza, pois certeza não é pré-requisito para essas coisas. O amor é uma delas. Não se tem certeza...Ama e ponto. Isso é uma certeza? Não. Amar é assumir a liminaridade.

Amo perambular. Quero perambular pra sempre na vida. Porém, nem tudo são flores na vida de um perambulante. Existem situações que fazem o perambulante sofrer. As situações que causam desconforto são diferentes conforme o tipo de perambulante e o mesmo vale para seus momentos de alegria.

Com o tempo traçarei meu perfil perambulante ainda que este seja bastante amorfo e confuso.